segunda-feira, 11 de agosto de 2014
terça-feira, 25 de março de 2014
Dez lições da vida acadêmica
Karina Kuschnir
Sou meio pé-frio para eventos acadêmicos. Outro dia aceitei participar de um que estava o maior sucesso. Plateia cheia, palestrantes chiques de várias partes do mundo, todo mundo se sentindo. Mas chegou a minha vez de falar: penúltima sessão, bem no dia-em-que-ninguém-aguentava-mais; as pessoas importantes pediram desculpas pois-tinham-outros-compromissos, as coordenadoras cataram estagiários para sentar nas cadeiras vazias…
Mas sou uma professora com brios e sigo em frente! A palestra deveria ser sobre como realizar uma boa pesquisa em Ciências Sociais. Transformei numa uma espécie de guia de auto-ajuda para jovens pesquisadores. Estas são mais ou menos as palavras que falei (e os desenhos que mostrei):
“É muito bom estar numa sala com pessoas iguais a mim: todos ganhando pouco, trabalhando muito e sem a menor certeza de ‘pra que serve’ essa profissão…
Vou falar um pouco da época em que estava fazendo mestrado e doutorado, já que essa é uma oficina de alunos de pós-graduação. Mas já vou avisando que não sou a pessoa mais indicada para falar sobre como fazer uma boa pesquisa… Quando entrei no mestrado, meu único objetivo era ganhar uma bolsa! Quer dizer, no fundo, eu queria deixar de ser estagiária de jornalismo… Na minha época, o estagiário de jornalismo passava o dia todo ouvindo o rádio da polícia (o que era proibido) e ligando para os bombeiros para saber se havia alguma tragédia na cidade. Não era a tarefa mais criativa do mundo.
Apesar disso, na minha curta carreira, aprendi a diferença básica entre jornalismo e antropologia: numa redação, escrevemos praticamente o mesmo texto curto todos os dias, com nomes de pessoas diferentes. Nas ciências sociais, tomamos um mesmo grupo de pessoas como tema e escrevemos todos os dias um texto sobre elas que não acaba nunca!
Quando fui estudar para o mestrado, meu maior desafio foi não dormir lendo Marx. Li aquele capítulo do Capital sobre o fetichismo da mercadoria e pensei: ferrou! Não entendi nada. Por sorte, a Maria Claudia Coelho era minha professora na PUC e se dispôs a traduzir aquilo pra mim. E não é que o texto caiu na prova? Uma professora durona estava na banca e me perguntou: porque você escolheu Marx para responder essa questão? Respondi a verdade: não tinha entendido nada quando li pela primeira vez, e depois achei genial – era uma questão de honra enfrentá-lo na prova! (Só não falei que o mérito era todo da Maria Claudia, pois não ia pegar bem…)
Aprendi
muito com as minhas gafes no primeiro semestre no Museu Nacional.
Imaginem vocês que coloquei no meu currículo que sabia tocar violão!
(Não, não tinha Lattes naquela época.) E num encontro de encerramento do
primeiro período, ouvi um pessoal falando sobre uma tal de “ABA” e não
tive dúvida: ‘professor, o que é ABA**?’ Meus colegas de turma vinham
da UFF, do IFCS e da graduação em antropologia na Argentina! Todo mundo
discutia a hermenêutica maussiana e a cismogênese… (**Associação
Brasileira de Antropologia)
Enquanto isso, à tarde e à noite, eu ia para a redação da antiga rádio Jornal do Brasil trabalhar em matérias sobre a Guerra do Golfo, a construção da Linha Vermelha e os efeitos da Queda do Muro de Berlim. A agilidade desse tipo de trabalho me dava alguns trunfos, não posso negar.

Um dia, tive que apresentar um seminário sobre o Homo Hierarquicus do Louis Dumont para a aula do professor Gilberto Velho. Ele era exigentíssimo mas, ao invés dos 20 minutos que me cabiam, gastei uns 27 ou 30… Terminei o mais rápido que pude, já me explicando: ‘desculpe, professor, demorei um pouco mais do que deveria porque esqueci todas as minhas anotações em casa’. A turma fez um grande ohhhh e de repente virei uma heroína!
Enquanto isso, à tarde e à noite, eu ia para a redação da antiga rádio Jornal do Brasil trabalhar em matérias sobre a Guerra do Golfo, a construção da Linha Vermelha e os efeitos da Queda do Muro de Berlim. A agilidade desse tipo de trabalho me dava alguns trunfos, não posso negar.
Um dia, tive que apresentar um seminário sobre o Homo Hierarquicus do Louis Dumont para a aula do professor Gilberto Velho. Ele era exigentíssimo mas, ao invés dos 20 minutos que me cabiam, gastei uns 27 ou 30… Terminei o mais rápido que pude, já me explicando: ‘desculpe, professor, demorei um pouco mais do que deveria porque esqueci todas as minhas anotações em casa’. A turma fez um grande ohhhh e de repente virei uma heroína!
Segunda
lição aprendida: faça o seu trabalho, entregue o que você se
comprometeu a entregar no prazo, mesmo que o resultado não seja
perfeito.(Sempre se pode mandar anexos e notas depois!)
Isso
vale também para a escolha dos temas de pesquisa. No jornalismo diário,
somos obrigados a enfrentar qualquer pauta, sem tempo para
questionamentos filosóficos. Já nas Ciências Sociais… deixa pra lá.
Na
época em que tive que escolher um orientador, expliquei para o
Gilberto Velho que não poderia ser orientanda dele de jeito nenhum.
Falei que não sabia nada de antropologia, nem o básico do básico. Mas
ele me respondeu, o que se tornou a Terceira lição aprendida: “você sabe escrever, e isso é 50% do trabalho do antropólogo”
Minha sorte foi que logo no curso seguinte que fiz com ele, aprendi o segredo dos outros 50%: Para fazer antropologia bastava ficar o dia todo parada numa esquina, me enturmar com jovens desocupados e escrever um diário sobre isso! Quarta lição, com ajuda de William Foote-Whyte.
Nessa altura, eu sofria muito para fazer os trabalhos de mestrado.
Muito! Eu não via sentido naquilo. Tudo me parecia tão inútil… Meu
primeiro trabalho foi: “O conceito de nação na obra João Ubaldo Ribeiro
em diálogo com Gilberto Freyre e outros autores”. No primeiro rascunho,
fiz assim: revi toda a teoria que tinha lido nos primeiros quatro meses
do curso e escrevi uma lista de 54 tópicos para abordar no trabalho.
54! A sorte foi que nessa altura eu já tinha tomado outra providência
importantíssima para a carreira acadêmica: arranjei amigos mais
experientes do que eu! No final, dos 54 tópicos sobraram 3!
Quinta lição aprendida: na hora de fazer um trabalho, comece pensando pequeno. Quase sempre é melhor dizer muito sobre poucos temas do que o contrário. Felizmente, naquela
época, a pressão para escolher um tema para a dissertação era menor do
que hoje. Só me decidi a trabalhar com políticos no final do primeiro
ano do mestrado. Me pautei pelo que achava que seria uma ‘pesquisa
útil’. Acho que estava totalmente errada.
Hoje penso que todas as pesquisas são úteis, (ou quase todas), pois independentemente do tema, no fundo, a grande utilidade de uma pesquisa inicial é formar um pesquisador. (Sexta lição!)
Gilberto Velho acabou por decidir ser meu orientador, sim. Ele nunca deu
muita bola para fórmulas metodológicas. Era como aqueles figurões de
Oxford para quem o Evans-Pritchard foi perguntar o que devia fazer
quando chegasse nos Azande: “seja um cavalheiro” e “não haja como um
perfeito idiota”, foram os melhores conselhos. Ele próprio sempre
misturou muitas técnicas nos seus trabalhos, e nosso grupo de
orientandos era um exemplo dessa diversidade.
Minha sorte foi que logo no curso seguinte que fiz com ele, aprendi o segredo dos outros 50%: Para fazer antropologia bastava ficar o dia todo parada numa esquina, me enturmar com jovens desocupados e escrever um diário sobre isso! Quarta lição, com ajuda de William Foote-Whyte.
Hoje penso que todas as pesquisas são úteis, (ou quase todas), pois independentemente do tema, no fundo, a grande utilidade de uma pesquisa inicial é formar um pesquisador. (Sexta lição!)
Lição número sete: Tínhamos liberdade para experimentar e nos reuníamos semanalmente num espaço de troca, respeitoso e amigável. E
esse é um segredo que não sei se consigo bem explicar: simplesmente não
havia nos grupos de orientandos do Gilberto a famosa “feroz competição
acadêmica”. Ao contrário, talvez a enorme exigência dele favorecesse em
nós o espírito solidário! Nossas
experiências envolviam observação participante, sim, mas também
entrevistas longas ou curtas, fontes impressas, fontes históricas,
imagens, filmes, diagramas, mapas, indicadores sociais, estatísticas
eleitorais, fontes comparativas, teoria literária, sociológica,
formalismo russo, folclore, urbanismo… O computador pessoal era uma
novidade… mas cheguei a utilizar softwares de análise de conteúdo e por
pouco não aprendi um sobre estudo de redes…
Que
bom que não consegui. No doutorado, escrevi eu mesma uma pequena
programação de software para lidar com meus dados de campo e de
entrevistas. Mas tanto tempo no computador acabou me gerando uma
tendinite tão grave que 90% da redação das 450 páginas da tese foi feita à mão.

Lição número 8: computador demais sempre atrapalha. Seja no sentido mais direto, do sofrimento que gera no corpo do pesquisador; seja no sentido mais indireto, que é o excesso de dados que acaba por promover. Só para dar um exemplo, em 1991, ainda quando a internet se chamava bitnet e estava engatinhando nas universidades americanas, descobri um tesouro! Uma base de dados chamada Sociofile. Era uma espécie de Google para procurar resumo de artigos acadêmicos. Perdi semanas naquilo, separei uma lista fantástica de centenas de artigos, classifiquei por temas e… me perguntem quantos textos eu realmente li daquela lista? Uns dois ou três. Não deu tempo.
Lição número 9: referências bibliográficas demais atrapalham. No meio dessas experimentações todas, acho que tive sorte de passar por temas, lugares e pessoas muito diversos. Fiz pesquisas com elites, em casas legislativas, em favelas, em subúrbios e na Zona Sul, em locais de alta criminalidade, ou com movimentos sociais, em locais com alta escolaridade e renda.
Os políticos na minha opinião são o segundo pior grupo para se estudar.
Eu achava que eram os piores: tem até um ditado russo: ‘você sabe quando
um político está mentindo? Quando ele abre a boca.’ Eles
nunca estão disponíveis, nunca querem te receber; quando te recebem
estão ao telefone, quando marcam, esquecem, e quando lembram, não dá
mais tempo. Eu morria de inveja de uma amiga que estudava
velhinhos… Eu pensava ‘que maravilha seria ter aqueles informantes’, tão
dedicados e solícitos, dispostos, simpáticos e com tempo! Até que minha
amiga, sabendo dessas fantasias, foi logo me desiludindo: ‘tá maluca?
Velhinho é o pior tema do mundo: primeiro, porque eles não param nunca
de falar. Segundo, porque eles morrem no meio da sua pesquisa!’
Ok, agora falando sério. A coisa mais importante que aprendi com todos esses temas e experiências foi:
Lição número 10: uma boa pesquisa exige paciência, curiosidade e foco. Quer
dizer, paciência é só uma palavra bonitinha para não dizer: ‘enfrente o
tédio’! Então, reformulando: uma boa pesquisa exige o tédio, aquele
tempo em que você acha que
não está fazendo nada, em que você se permite “se deixar ficar” junto
ao universo de pessoas (ou textos) que escolheu para pesquisar. (Eu não
disse que era só ficar parada numa esquina?)
Lição número 8: computador demais sempre atrapalha. Seja no sentido mais direto, do sofrimento que gera no corpo do pesquisador; seja no sentido mais indireto, que é o excesso de dados que acaba por promover. Só para dar um exemplo, em 1991, ainda quando a internet se chamava bitnet e estava engatinhando nas universidades americanas, descobri um tesouro! Uma base de dados chamada Sociofile. Era uma espécie de Google para procurar resumo de artigos acadêmicos. Perdi semanas naquilo, separei uma lista fantástica de centenas de artigos, classifiquei por temas e… me perguntem quantos textos eu realmente li daquela lista? Uns dois ou três. Não deu tempo.
Lição número 9: referências bibliográficas demais atrapalham. No meio dessas experimentações todas, acho que tive sorte de passar por temas, lugares e pessoas muito diversos. Fiz pesquisas com elites, em casas legislativas, em favelas, em subúrbios e na Zona Sul, em locais de alta criminalidade, ou com movimentos sociais, em locais com alta escolaridade e renda.
Ok, agora falando sério. A coisa mais importante que aprendi com todos esses temas e experiências foi:
Eu
tenho um amigo que seguia essa regra, mas à sua maneira: passou mais da
metade do seu mestrado sentado na mesa de um bar perto da universidade!
Era um tédio bem divertido, digamos. E depois ele acabou fazendo uma
dissertação incrível sobre como a pesquisa não deu certo! Hoje ele é um
excelente professor doutor numa universidade ótima.
Talvez
uma pesquisa seja um longo e paciente processo de aprender a
olhar/enxergar, ouvir/escutar, interagir/dialogar com o campo (ou mundo)
suscitado pelo tema que você escolheu. É estranho que eu tenha partido
do que aprendi com Gilberto Velho para chegar a essa conclusão. Ele era a
pessoa mais impaciente e ansiosa que já conheci na vida! Ai de quem não
estivesse na aula dez minutos antes de começar. E todas as lendas de
que ele chegava ao Museu Nacional às 7:15h da manhã, atendendo
telefonemas com voz de “múmia” são verdadeiras. Era uma tortura para ele
esperar até as 7:59 – já tarde nos seus parâmetros – para ligar e
fiscalizar se já estávamos de pé e operantes!
Mas
posso dizer que ele tinha um outro tipo de paciência, que se
materializava através de duas práticas constantes: a curiosidade
infinita pelo mundo, o que o levava a respeitar todas as fontes de
conhecimento; e a capacidade de focar nesse processo de conhecimento
como se não houvesse nada mais importante no mundo a fazer. Era uma
curiosidade que o levava a ser capaz de ir ao baile funk, ao terreiro de
umbanda, ler 300 páginas de um copião de tese num dia só, orientar
pesquisas sobre astrologia, atores de cinema pornográfico e
representações teatrais sobre a cidade no século XIX.
No
meu caso, aprendi a praticar essas três coisas (paciência, curiosidade e
foco) muito mais depois que me tornei mãe e me envolvi num trabalho
voluntário para apoio a mulheres que desejam amamentar. Durante pelo
menos dez anos coordenei grupos onde a principal tarefa era ouvir e
dizer ‘hã hã’, ‘sim, entendo…’, ‘como foi isso, me conte…’, e devolver
perguntas complicadas com outras simples ‘como você responderia essa pergunta…?’
Tive
a sorte de estar num grupo que definia tudo isso como ‘dar apoio’ e
‘suporte’ . E qual não foi a minha alegria quando um dia descobri que
era exatamente essa a técnica de entrevistas que o Howard Becker
defendeu em seu livro sobre metodologia… Diga o mínimo e ouça o máximo…
Depois
desse tempo de pesquisa, escuta e convívio, há que se percorrer ainda
um longo caminho. Só que essa é a parte divertida! Fica para a próxima
palestra. Obrigada. E agora vamos às perguntas de vocês!” (E foi difícil
arrancar umas perguntas, porque os poucos que sobraram estavam com
fome, claro.)
Sobre os desenhos: Todos foram feitos na App Paper (53) no Ipad com canetinha Bamboo.
Agradecimentos: Agradeço
à Julia O’Donnell e à Mariana Cavalcanti pelo convite para a palestra; e
à Bianca Freire-Medeiros pelos êêêê entusiasmados. Aproveito para
desejar que elas tenham mais sucesso na escolha dos convidados para a
próxima vez!
terça-feira, 12 de novembro de 2013
domingo, 10 de novembro de 2013
Resenha de "Um antropólogo na metrópole"
Resenha de Claudia B. Rezende para o livro "Um antropólogo na metrópole", de Gilberto Velho (seleção de textos e introdução de Hermano Vianna, Karina Kuschnir e Celso Castro, Ed. Zahar, 2013).
Disponível em: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2013/308/complexidade-urbana
Disponível em: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2013/308/complexidade-urbana
Complexidade urbana
Textos de Gilberto Velho selecionados por ex-alunos são reunidos em livro um ano após a morte do antropólogo. As reflexões teóricas e metodológicas contidas na obra são comentadas por professora da Uerj no 'sobreCultura'.
Por: Claudia Barcellos Rezende
Publicado em 01/11/2013 | Atualizado em 01/11/2013
Gilberto Velho dedicou-se ao estudo da antropologia urbana e defendia que a própria posição social do pesquisador interfere na forma como ele vê e interpreta a sociedade. (ilustração: Aliedo)
Foi lançada recentemente a coleção de ensaios de Gilberto Velho Um antropólogo na cidade, organizada por seus ex-alunos Hermano Vianna, Karina Kuschnir e Celso Castro. A coletânea homenageia Gilberto um ano após a sua morte, em abril de 2012, e traz uma seleção de textos publicados anteriormente com suas principais reflexões teóricas e metodológicas sobre a antropologia urbana. Como ex-aluna e amiga, vejo nesta coletânea uma exposição valiosa de suas ideias e questionamentos, que revela a importância deste que foi um dos antropólogos brasileiros mais influentes que tivemos.
Há três temas mais abrangentes – a pesquisa em meio urbano, o indivíduo e suas vivências nas sociedades complexas e a questão dos comportamentos ‘desviantes’ – presentes em vários ensaios, que justificam tratá-los em conjunto. O primeiro deles é abordado a partir de uma indagação que Gilberto fazia constantemente: o que significa fazer pesquisa em uma grande cidade e principalmente na sua própria cidade? Quais os desafios e problemas do estudo do meio urbano, enfrentados no caso de uma pesquisa antropológica, na qual se espera que o pesquisador conviva mais intensamente com o grupo estudado?
Longe de imaginar qualquer possibilidade de imparcialidade, ele defendia que a própria posição social do pesquisador em sua sociedade interferia no modo de ver o mapa social da cidade e, por sua vez, na relação com os diversos grupos com os quais tem contato em graus variados. Daí, portanto, a necessidade de estranhar o familiar, de compreender esse mapa social não apenas como um viés presente na pesquisa de campo, mas também como mais um elemento a ser analisado. Pois a relação do pesquisador com os grupos de pesquisa seria mais um exemplo de como se dão as relações sociais em uma grande cidade, nas sociedades complexas.
A ideia de complexidade referia-se tanto ao contraste com as sociedades tradicionalmente estudadas pelos antropólogos, quanto à heterogeneidade resultante da divisão social de trabalho e da estratificação social
Para pensar essas relações – segundo tema tratado no livro –, Gilberto recorreu a um conjunto de conceitos, cujas origens vinham tanto da sociologia de Georg Simmel (1858-1918) e dos interacionistas simbólicos americanos quanto da fenomenologia de Alfred Schutz (1899-1959), entendidos à luz de suas preocupações com a sociedade brasileira.
A ideia de complexidade referia-se tanto ao contraste com as sociedades tradicionalmente estudadas pelos antropólogos, relativamente isoladas e homogêneas, quanto à heterogeneidade resultante da divisão social de trabalho e da estratificação social, particularmente acentuada no meio urbano. Nas sociedades complexas, afirmava ele, coexistem diversos grupos sociais, com estilos de vida, visões de mundo e códigos distintos – regras de comportamento e formas de linguagem específicas, que muitas vezes apresentam fronteiras relativamente bem demarcadas.
Por isso, não faria sentido falar em uma cultura comum a todos, pressupondo aí o compartilhamento de valores, noções e comportamentos por toda uma sociedade. Antes, caberia ao antropólogo perguntar: “O que pode ser comunicado? Como as experiências podem ser partilhadas? Como a realidade pode ser negociada e quais são os limites para a manipulação de símbolos?”.
Com essas indagações, o autor revelava um interesse fundamental e constante pelos vários aspectos da relação do indivíduo com a sociedade. Primeiramente, temos o desempenho de diversos papéis sociais, que implica muitas vezes circular por grupos sociais com códigos e visões de mundo específicos. Essa circulação não é livre; ao contrário, está circunscrita ao campo de possibilidades colocado pela trajetória familiar e social do indivíduo. Há espaço para escolha individual, mas esta é sempre limitada por esta inserção social. Esse trânsito por vários mundos não significa que o indivíduo domine igualmente todos os códigos e estilos de vida com os quais tem contato. Ao contrário, ele tem graus variados de familiaridade e adesão a eles. Em alguns casos, quando o indivíduo lida bem com vários códigos distintos, pode exercer até a condição de mediador entre mundos diferentes.
Heterogeneidade social e cultural
O que significa subjetivamente vivenciar essa heterogeneidade social e cultural? Gilberto dedicou-se a pensar a tensão entre a experiência de uma vida fragmentada por vários papéis e mundos sociais e a unidade propiciada tanto por unidades englobantes, como família e instituições religiosas, quanto pelo processo de construção de identidades e projetos. Neste último tópico, a ação da memória seria fundamental para oferecer uma visão retrospectiva da trajetória e da biografia e selecionar elementos do passado que servirão de matéria-prima para a elaboração dos projetos futuros.
- A pesquisa em meio urbano, o indivíduo e suas vivências nas sociedades complexas e a questão dos comportamentos 'desviantes' foram os três grandes temas abordados por Gilberto Velho. (ilustração: Aliedo)
Em suas palavras, “o projeto e a memória associam-se e articulam-se ao dar significado à vida e às ações dos indivíduos, em outros termos, à própria identidade”. Com forte carga afetiva, o projeto seria construído também a partir do repertório de temas, valores e códigos oferecido pelo campo de possibilidades no qual se insere o indivíduo. A memória e o projeto são centrais então para entender como o indivíduo ordena sua trajetória em um mundo diverso e fragmentado.
Nas sociedades ocidentais modernas, destaca o autor, a construção de um projeto e de uma biografia singulares torna-se valor importante. Na sociedade brasileira, os segmentos médios urbanos – foco de suas pesquisas – seriam aqueles cujos códigos e visões de mundo mais acentuariam a individualização do sujeito. Sem perder de vista o pertencimento do sujeito a unidades mais englobantes, nesses segmentos valoriza-se sua singularidade, com a acentuação de uma trajetória e projetos particulares.
Entretanto, o destacamento do indivíduo dessas instituições mais amplas pode ser visto às vezes como problemático e resultar em acusações, como aconteceu com os jovens de camadas médias que usavam drogas, estudados por Gilberto na década de 1970, muitas vezes tratados por sua família como doentes.
Partindo de uma perspectiva interacionista, Gilberto propôs que o desvio fosse entendido a partir da relação entre pessoas que acusam outros por estarem quebrando valores e limites de uma dada situação sociocultural
Aqui, confrontamo-nos com a questão do desvio, terceiro tema da coletânea. Na época de sua pesquisa, os comportamentos desviantes eram explicados ora como problemas de uma sociedade disfuncional, em crise, ora como características psicológicas inatas ao indivíduo. Partindo de uma perspectiva interacionista, Gilberto propôs que o desvio fosse entendido a partir da relação entre pessoas que acusam outros por estarem quebrando valores e limites de uma dada situação sociocultural. Nesse sentido, o ‘desviante’ seria aquele que faria uma ‘leitura’ divergente, sozinho ou em grupo, de certa realidade, não sendo ‘desviante’ diante de todos nem em todos os momentos.
Este é um breve panorama das questões e ideias tratadas por Gilberto Velho ao longo de sua carreira, bem ilustradas neste livro, que traz também dados de pesquisas realizadas principalmente na década de 1970 – a vida em um prédio em Copacabana, a relação entre jovens que usam drogas e suas famílias, a trajetória de uma imigrante açoriana nos Estados Unidos. Além disso, o livro ganha uma coloração especial com a entrevista feita com ele em 2001 e a apresentação escrita pelos organizadores.
Assim, entendemos como Gilberto construiu sua própria biografia e trajetória intelectual e institucional, com elementos destacados por ele como importantes – a figura do pai militar, o estudo no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a graduação em ciências sociais no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) durante a ditadura, os diversos períodos nos Estados Unidos, o doutorado na Universidade de São Paulo (USP), a dedicação ao ensino e pesquisa no Museu Nacional da UFRJ, as muitas referências de pensadores e romancistas brasileiros, americanos e europeus, antigos e contemporâneos, que influenciaram sua obra. Incorporando fontes do seu arquivo pessoal na apresentação, os organizadores traçam um retrato cuidadoso e afetuoso de quem ele foi e como podemos entender seu pensamento que ousadamente reuniu referências de várias origens e produziu uma síntese muito própria. A coletânea vem a ser, portanto, uma contribuição especial para que sua obra permaneça influenciando as reflexões sobre a vida urbana.
Gilberto Velho: um antropólogo na cidade
Hermano Vianna, Karina Kuschnir e Celso Castro (seleção e apresentação)
Rio de Janeiro, Zahar
200 páginas – R$39,90
Hermano Vianna, Karina Kuschnir e Celso Castro (seleção e apresentação)
Rio de Janeiro, Zahar
200 páginas – R$39,90
Claudia Barcellos Rezende
Professora do Departamento de Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Evento Marcos Rosa - Anotações feitas à mão
Para quem não viu no Facebook... Anotações feitas por mim durante a excelente palestra do Marcos L. Rosa no primeiro "Encontros de Design e Antropologia" promovido pelo LaDA/Esdi/Ifcs:
terça-feira, 29 de outubro de 2013
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Design na Praça - Bate-papo
Confirmado! Bate papo no Design na Praça 2013 - http://www.designnapraca.com.br
/ in Edição 2013
23/10/2013 - Das 18h às 20h.
- Mediadora: Barbara Szaniecki
- Curadoria: Angela Carvalho
Quem já confirmou a presença no bate papo:
LaDa- Laboratório de Design e Antropologia com Zoy Anastassakis, Karina Kushnir eBarbara SzanieckiLaDa: o Laboratório de Design e Antropologia reúne dois ambientes institucionais, em design e em ciências sociais, a saber, a Esdi/UERJ através das professoras pesquisadoras Zoy Anastassakis (designer e antropóloga) e Barbara Szaniecki (designer) e o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ) através da professora pesquisadora Karina Kuschnir (antropóloga). No momento atual o LaDA se articula em torno de uma prática combinada entre extensão e pesquisa, tomando por tema e terreno de trabalho a região central da cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente, entre o Largo de São Francisco (onde se situa o IFCS) e o Largo da Lapa (ESDI). Entre pesquisa etnográfica, análise antropológica, pensamento prospectivo e ação projetual, buscamos perceber o lugar em que estamos e as relações que nele são tecidas, discutindo as potencialidades da cidade a partir de sua vida cotidiana. É nesse sentido e em outros possíveis que desejamos contribuir para o debate em torno do Faça Você Mesmo (com os outros).
Tatiana Altberg e projeto Mão na LataTatiana Altberg é fotógrafa e designer com ampla experiência em projetos ligados à fotografia e educação. Em 2003, criou o projeto Mão na Lata em parceria com a oscip Redes da Maré para jovens das comunidades da Maré.
Rodrigo de Oliveira Paes e projeto SonorizarRodrigo de Oliveira Paes - coordena a oficina Sonorizar que passou a integrar o Projeto Arte Ação Ambiental iniciado em meados de 1999 dentro do MAC Niterói, no setor de Educação e Pesquisa. O Sonorizar atrai jovens da comunidade do Palácio através da música, do artesanato e de instrumento musicais.
Cinthia Mendonça e projeto Nuvem – Estação Rural de Arte e TecnologiaCinthia Mendonça – É idealizadora e gestora do projeto Nuvem – Estação Rural de Arte e Tecnologia: num contexto onde as cidades se tornam cada vez mais insustentáveis, ela acredita que um espaço rural é o ambiente mais apropriado para experiências transformadoras ligadas à sustentabilidade. A Nuvem proporciona diferentes programas de residencias e encontros, um deles é o Interactivos? cuja a prática se instala com influências das premissas do Faça Você Mesmo (Do It Yourself) e Faça Com Os Outros (Do It With Others).
Anna DantesAnna Dantes trabalha com livros desde 1988. Em 1994 abriu a Dantes Livraria que em 1997 se tornou editora. Desde então, é responsável por trabalhos de edição, tendo a pesquisa transdisciplinar como modelo. Foi curadora da exposição Glaziou e os jardins sinuosos, para o Ano França-Brasil, no JBRJ. Coordena o laboratório Setor X na Bibliotecas Parque de Manguinhos e da Rocinha, o selo Pipa Livros em gráficas da zona portuária do Rio e o selo Lábia gentil com a galeria de arte A Gentil Carioca. Estes, e mais projetos, estão no www.dantes.com.br. A experimentação entre formatos – livros de arte, bolso, dramaturgia, revistas, curadorias, exposições, moda, perfume – lhe legou uma trajetória ímpar no cenário.
Henrique MonneratHenrique Monnerat é um dos fundadores da Designoteca.com, uma plataforma digital que ajuda pessoas a encontrarem produtos e projetos de design direto de designers e artistas brasileiros que utilizam a ferramenta on-line para publicar e vender suas obras. Formado em Design pela Escola de Artes e Design HfG Offenbach na Alemanha, possui mestrado em Biomimética na mesma instituição, trabalhou em escritórios de design no Brasil e na Holanda. Hoje além de trabalhar na Designoteca.com, Henrique Monnerat é professor de design da PUC-Rio e um dos diretores da Associação Fab Lab Brasil. http://www.designoteca.com
Ricardo Dullius Ricardo Dullius é um jovem empreendedor, diretor criativo da Vandal – Power for Creation, empresa de e-comerce que imprime camisetas exclusivas com ilustrações de designers e artistas. Usa tecnologia de ponta e conceitua seu negócio da seguinte maneira: ” Acredito na liberdade criativa e na importância da experiência para que cada pessoa consiga criar e interagir melhor com os produtos que consome. Tornando a relação entre empresas e pessoa uma troca mais justa e interessante. www.vandal.com.br
Bruno Tarin - Bruno Tarin é atualmente doutorando da Escola de Comunicação da UFRJ. É co-organizador com Adriano Belisário do Livro ” Copyfight: Pirataria & Cultura Livre” sobre o exercício da criatividade e a propriedade intelectual na contemporaneidade e também editor das revistas Lugar Comum e Global Brasil. Coordenador de Audiovisual do Ponto de Cultura Circo Voador, Articulador/Produtor do Pontão de Cultura Digital Circo Voador. Membro da Rede Universidade Nômade e colabora com diversas redes Ciber/Midiativistas. Participa ativamente dos debates relacionados com a propriedade intelectual e a economia criativa, a produção do comum e de políticas públicas de cultura – especialmente em relação com o digital.
Samara Tanaka Samara Tanaka é designer, baseada no Rio de Janeiro, formada pela Esdi e com mestrado pela Koeln International School of Design, na Alemanha. Atualmente trabalha com design estratégico para inovação na MJV e faz pesquisa e projetos independentes sobre inovação social. Faz parte do MECCA Rede, uma rede para compartilhamento de tecnologias sociais, onde anima o Design Aberto P2P.
Grupo Norte Comum O Norte Comum é um ponto de encontro entre teoria e prática, um espaço de escuta e convivência permeada por fazeres, tendo como caminho a produção e troca de conhecimento para questionar o espaço urbano, mudar as relações humanas, usando a nossa força criativa para a redução das distâncias e desigualdades, usando a arte como ponte entre as pessoas, cidade e idéias. A idéia surgiu diante da evidente escassez de projetos e atividades relacionados à cultura na zona norte. Frente à essa realidade o que se vê é o êxodo generalizado de boa parte dos moradores locais (em especial os jovens) para o Centro e a Zona Sul da cidade onde há o monopólio da cultura no Rio de Janeiro. O Norte Comum propõe uma “inversão de rota” em âmbito cultural na cidade. O projeto é dividido basicamente em duas frentes gerais de atuação. Uma referente a criação e manutenção da rede, e a outra focada na formação de uma produtora coletiva e horizontal. Mas especificamente, essas frentes de atuação são: comunicação, cultura, ecologia, saúde e meio ambiente; social; audiovisual; pesquisa e história.
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